Carga pesada

Eu prometo, é a última vez que escrevo sobre nós dois. Acho que estou te envaidecendo. O teu silêncio, ainda que configurado dentro de uma pergunta não muito profunda, apenas com o intuito não concretizado de ser revertida em continuidade, é a minha melhor (e angustiante) resposta. Mas eu prometo, não escreverei mais sobre isso.

O peso de uma relação que começa e termina numa noite, encurtada pela necessidade de dormir por algumas horas, é imenso – pelo menos para mim. Talvez seja fruto do esforço demasiado para abrir o corte, te tirar da hibernação para, em questão de horas, ser obrigado a recolocá-lo em quarentena por tempo indeterminado. Não há processo de coagulação e cicatrização tão evoluído, especialmente quando as feridas são internas. Mas não discorrerei mais a respeito.

Ao contrário da marca no teu ombro, delimitação territorial que te fez todo meu naquele instante, não vou fazer pressão de qualquer ordem. A libertação forjada pelo afrouxamento da mão foi a tentativa de me reproduzir no teu coração. Repito e reitero minha promessa: não vou mais escrever sobre isso.

Quanto a sentir qualquer tipo de variação emotiva dentro do espectro em que um dia nos localizamos juntos, ah, isso é outra história. Que eu não vou poder contar, a não ser que as regras mudem.

Is this thing on?

O meu rosto queimou. Um calor espraiado a partir da extremidade da minha orelha esquerda até encontrar onda semelhante vinda diretamente do lado oposto. E eu exclamei: meu telefone vai tocar. Da sintonia fina, uma grande interrogação formada por milhares de versões menores dela mesma, intrínseca ao enigma, ou talvez óbvia demais para a credulidade imediata. É na distância que eu encontro o eco real e estimulante do meu próprio clamar? Na proximidade somos dois polos de igual carga que se repelem? Eu vou escrever esperando a sua leitura para assinar embaixo da construção de algo que não se sabe bem o que é?

Uma janela

Dois corpos de leite entrelaçados perante o espelho, na plena observação do encaixe perfeito, por que não nos devoramos (numa estrada de mão dupla) na totalidade? Será que deixando pela metade fica aberta a possibilidade do reencontro e reitera-se a vontade pelo fato de não haver sido completado o ciclo – sutilmente interrompido nas preliminares (ainda que na intensidade plena)? Faltou desejo, sobrou projeção? Sobrou desejo, faltou ação? Do gozo, a dúvida.

O meu hábito de acrescentar significado a tudo, seguido de perto pelos teus olhos atentos, sorriso de lado, permaneceu. E enquanto tu contemplas meu rosto, e retém o calor da minha pele nas entrelinhas, eu me (re)apaixono pelo fogo com que falas sobre assunto qualquer. Numa mutação, há amor sob a forma de açúcar, um bombom de sentido e, de novo, amor sob a forma mais usual de rosas. Sem espinhos, sem cabo, somente pétalas espalhadas, assim como as peças de um quebra-cabeça.

A minha cabeça, ora envergada por prazer, ora baixa pela dúvida, repassa cada momento. Ela tem ciência da noite singular, em quantidade e representatividade, claramente ligadas pelos seus inversos, e não oscila no que parece permanecer. Se na tentativa de acertar, mostrar ser diferente de quem era quando da primeira era de nós dois, qual a minha visão a respeito dessa desconstrução? Na sua auto-constatada falha em fazê-lo, de fato eu não vi quem devia ver, então, quem é você? O resultado é amor, ainda que banalizado de acordo com as regras de tempo, carência e sabotagem, somado à curiosidade. De um jeito ou de outro, a descoberta?

Mea culpa

Incógnita ou O exato momento em que me perdi

Caminhei como se fosse desfalecer no passo seguinte. Lágrimas brotando e um par de pernas hesitantes. De repente, a sensação cardiacamente palpável de ter deixado algo para trás: escova de dente, carteira, meu coração? A tentativa de ler um livro no robô alado, a claustrofobia e a inversamente proporcional golfada emocional, geograficamente localizadas num limbo grávido de expectativas. Num átimo, o cheiro que ficou nas minhas mãos, na clara alusão a porto seguro, uma posse não possuída num enlace indefectível embaixo do lençol.

Eu tinha o costume de pegar papel e caneta quando um trem descarrilava dentro de mim. E não poupava esforços. Criava símbolos. Jogava pétalas de rosas na cama. Compartilhava meu tempo, dinheiro (às vezes pagando o adicional na simples e falha tentativa de garantir a noite seguinte, prometida com o cruzamento dos dedos mínimos, pelo fato de ter gerado uma dívida hipotética) e era expert na construção de expectativas (abstratas e concretas).

Não media esforços. Amava e dizia. E não tinha medo de uma possível retaliação sob a forma de dor póstuma. Eu acreditava. Agarrava e segurava com afinco um palmo de areia, ainda que escorresse entre os meus dedos. Mãos firmes, pernas bambas. Nadava até um bote, mesmo que nunca chegasse nele de fato. Eu era flexível perante a vida. E duro comigo mesmo. Mudava meus planos num segundo para adequar uma situação. Uma, duas, três vezes. Eu endureci. E amolecia.

Eu não sei por onde recomeçar neste casamento de estilos. Será que daríamos certo se eu estivesse aí? Quando vamos nos falar/ver novamente? Vamos nos falar/ver novamente? Com que frequência? O que diremos? Qual será a interpretação do silêncio? Vamos silenciar? Devemos silenciar em benefício mútuo? Qual o tipo de relação que se estabelece quando já se chegou no ápice das palavras? E outras tantas perguntas enigmaticamente aninhadas num aquário habitado por um escorpião.

Achados e perdidos textuais

Dezembro de 2011/Atemporal?!

Sempre que decido começar a escrever algo novo, fato que tem ocorrido com certa repetição, duas opções são apresentadas no menu: uma linha que se perde e, portanto, jaz esquecida num limbo de pseudo-criações; ou a dissolução da ideia ainda dentro da mente, num limbo interno. Acho que isso ocorre porque as mesmas formas se manifestam, fator que me desespera. Se o gesto do personagem, aquele que não sou eu, não se materializa, para onde vou (mantendo a prerrogativa do caminho)?

Foram inúmeras as vezes em que me dispus a sentar e discorrer da forma mais natural possível sobre qualquer tumulto aqui dentro. Ah, mas o tumulto encontrou uma forma de fazer caos na minha própria expressão – e eu me pergunto se, então, estou no caminho certo. Afinal, qual o meu papel?

O galã, pelo rosto e pela postura? O engraçado, pelos bastidores e tiradas cômicas? O figurante, pela experiência em cena? O gay, pela facilidade? O homem, pela dificuldade que se apresenta de rompimento? Ou devo apenas ser eu mesmo e desistir de vez?, embora eu não saiba com exatidão o meu próprio lead.

A última frase acima, confesso, fez-se em tom de finalização, como se anunciasse, pela sua feitura, que ali estava terminado este desabafo contido, pintado dentro das linhas (ao contrário). Decidi que não. É aí que entra a minha tentativa de dominar tal segmento mental e partir para ações específicas e diretas. Dentro da busca por aprovação, da incessante batalha para internalizar aquilo que somente o racional interpreta e compreende, da constante cobrança interna e externa para rompimento de limites… o que se declara? O que se omite? Posso assinar embaixo?

Comissão de agência

Briefing

Do verde-mel dos meus olhos, passando pelo calor do meu corpo, vermelho-lágrima.
Talvez pela minha constante busca por desculpas para justificar qualquer não-contato, prensado entre sono e compromisso, embora sempre à espreita de um milagre.
Do cortejo, organicamente saudável, um degradê ao pseudo-esquecimento – e eu não sei dizer por quê.
Do meu costume de partir, ainda que de forma inversa: um balão inflacionado pelos mais variados sentimentos.
Do meu exagero, da minha intensidade: Terra do Nunca, nunca uma verdade, mesmo ardendo nas mãos a memória corporal em formato de laço sem nó(s).
Ou qualquer produto da minha loucura, inclusive as mudanças na cor dos meus olhos

Spiral

Assinei mil moratórias
Para ofuscar meu peito
Em sua busca por reciprocidade

Fingi não ver as brechas nos contratos
Como se fossem cláusulas insignificantes
Diante da grandeza e nobreza desta odisseia platônica

Se falei de trabalho, com rara exceção,
Foi para tentar desvirtuar qualquer intenção
Se falei de amor, foi para tirar o foco de casa, comida, trabalho
A base para todo o resto que vem sempre em primeiro lugar

Qualquer busca é uma tentativa
De reverter esforço empregado em labor
Em vertente de bônus amoroso

Embolia emocional

Num rompante, estou num quarto
Minha antiga morada, um último refúgio
Senti o meu próprio cheiro
Perdido nas milhas
Lufadas do sexo nas paredes
Do vinho na taça
E da uva na vela
Danço conforme  a chama
Só para chamar tua atenção
Se estou carente, é passageiro
Um pensamento deslocado
Ou talvez haja lógica
Na hipótese da repetição
Se o que eu digo é fruto da carência
Não adianta ponderar um não-diálogo
Apenas a descargo de consciência
Sem me achar forte ou fraco
Por ceder ao apelo do deslocamento

How does it feel?

Sem perceber, eu me tornei meu próprio entorpecente de efeito contínuo. Essa droga sintetizada pelo meu sistema nervoso me impede de sentir: é choro que chega até as pálpebras, mas nunca ultrapassa. Robotizei meus sentimentos. Forjei uma armadura no calor da reação a tudo que me cerca. Se os olhos são janelas para a alma, escancaradas na esperança de reciprocidade, quem olha nos meus olhos quando espio, sorrateiro, pela moldura? Sou eu mesmo, contrafóbico?

Numb

Eu vou de um lado pro outro sem parar. Atravesso a ponte dentro de um ônibus, estanco meus sentimentos e decepo manifestações. E, mesmo me achando, me perco. Eu me faço forte, alimento minha própria armadura e sustento, num esforço por vezes descomunal, a estrutura. Assumir a responsabilidade pelo o que sinto, nos dois polos, significa estar neutro? Incapaz de saborear qualquer vertente sentimental que tenta sair e ganhar o mundo?

O velho papo, um novo jeito. Querer atenção. Carinho. Colo. Especificidade. Proteção que percorre uma via de mão dupla. Uma fonte similar de valores vertendo troca constante. Só existem referências? Eu esqueci como baixar minha guarda? Bati continência para a minha sensibilidade, dando adeus à fragilidade que uma orquídea possui, ainda representante de força na flora? Decidi alterar todos os meus textos para não ser erroneamente interpretado por ti e por todos? Quem é você? Carência, caos, projeção. Ou simplesmente montei o quebra-cabeça de forma errada?


“I am lonely, I feel hungry and unloved, I feel angry, I am livid, need a hug…”